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segunda-feira, 25 de junho de 2018

Plantas tolerantes à dessecação - Desiccation-Tolerant Plants

Uma estratégia extremamente interessante das plantas sobre os inselbergs é a tolerância a dessecação. Durante a estação seca, certas espécies entram em estado desidratado e ficam com aspecto de mortas. As folhas ficam enegrecidas e enroladas e chegam a perder até 90% da água de seus tecidos. Logo algumas horas depois da chuva, elas se reidratam e ficam verdes novamente, sem complicações estruturais e/ou fisiológicas. Por causa desta característica, são conhecidas como plantas da ressurreição. Gravamos um vídeo sobre isto no campo que fizemos no início deste ano aos pães de açúcar de Minas Gerais.

A very interesting strategy of some inselberg plants is the desiccation tolerance. During the dry season, some species go into the dehydrated state and become with dead appearance. The blackish and rolled leaves lose upto 90% of their water content. After the rain, they hydrated again and become green without structural and physiological damage. Because of that the are called "Resurrection Plants".



Vellozia e Barbacenia (Velloziaceae), samambaias e licófitas como Cheilanthes, Doryopteris e Selaginella são alguns exemplos destas plantas incríveis!

Vellozia and Barbacenia (Velloziaceae), ferns and lycophytes as Cheilanthes, Doryopteris and Selaginella are some examples of these amazing plants.

Barbacenia tomentosa (Velloziaceae) durante a estação chuvosa e estação seca. Foto: Luiza de Paula
Barbacenia tomentosa  (Velloziaceae) during the rainy and dry season. Ph.: Luiza de Paula

sábado, 21 de janeiro de 2017

Inselbergs da Caatinga à Mata Atlântica

No leste do Brasil, os inselbergs estão inseridos nos biomas Caatinga e Mata Atlântica, o que leva a particularidades florísticas com influências distintas!


Belíssimas ilustrações da Becca Stadtlander - http://www.beccastadtlander.com/



segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sentimento Naturalista



Expedição em uma cadeia de inselbergs graníticos no Sul da Bahia - Brasil
Diante de tanta atrocidade ambiental/ecológica, desmatamento e destruição, ainda é possível encontrar no Brasil (sem ser na Amazônia) lugares inexplorados e esplendorosos.

Em abril deste ano, eu e os botânicos Lu, Luana e Stefan, fomos os primeiros, e únicos estudiosos de que se tem registro, pelo menos nos últimos 50 anos, a subir uma cadeia de inselbergs graníticos, em uma fazenda no Sul da Bahia.

É inacreditável pensar que em pleno século XXI, desperta-se tão espontaneamente o sentimento naturalista de explorador, da busca pelo desconhecido e por espécies novas, e o entusiasmo por diferentes cores, formas e cheiros ainda não vistos e não sentidos...

Ao começar a subir as pedras, o batimento cardíaco aumenta e a adrenalina jorra incessantemente. O esforço físico é intenso na pedra inclinada. As pupilas dilatam, aguçando a visão, que procura ver e enxergar cada tom de cor. Assim, o espectro de verde quadruplica e a perspectiva empurra profundamente todas as camadas de vida à retina. Tudo é visto com mais detalhes, para absorver a beleza da Natureza ainda intocada e virgem aos olhos (de um pesquisador). O cérebro aumenta a quantidade de sinapses, fazendo correlações e questionamentos, que a cada passo reafirmam esse sentimento pitoresco tão inato de exploradores aventureiros.  

Logo no início da expedição, o grupo se dispersou. Inconscientemente, cada um foi para um canto, com o intuito de visitar maior área, aproveitando ao máximo cada segundo da luz do dia. Hora ou outra, nos encontrávamos diante de chamados (e até de gritos) exclamativos e entusiásticos para o compartilhamento de descobertas.

Fiquei tão extasiada que comecei a andar por impulsos acelerados. Parecia que estava atraída por ímãs de cores e formas magnéticas. Tropeções e quedas eram comuns nesse estágio de desatenção, que inclusive poderiam ser fatais em terrenos tão íngremes. Os dedos sofriam apertados contra a biqueira da bota, que acompanhava a inclinação da rocha. Porém o deslumbramento compensava todo o incômodo.

Obsessivamente, num gesto quase automático, levamos flores, folhas, resinas e caules ao nariz como se quiséssemos absorver os cheiros daqueles campos - embriagantes de pedra, Sol, néctar, pólen, chuva, planta e bicho.

Saturados os receptores hormonais, neurônios dendríticos de sensações térmicas e nervosas são desativados. O rosto encontra-se vermelho quente, consequência da aba do chapéu virada para cima, para enxergar as arvoretas mais altas e o voo de aves e insetos endêmicos. A despolarização da membrana dos axônios nem chega ao centro do sistema nervoso. Em micro milésimos de segundos, arranhões, batidas, queimaduras com plantas urticantes (Cnidoscolus e Aosa), cortes, espinhos de cactos que ultrapassam até a derme são esquecidos por qualquer novo ser vivo que subitamente é observado. 

Nos reconhecíamos em indivíduos gigantes de Encholirium (parte do complexo E. horridum), que possuíam folhas em rosetas maiores que um abraço e inflorescência de mais de 3m de altura com ramificações longas e pendentes, como braços humanos. Adjetivos carinhosos acompanhavam os gêneros Vellozia cheirosa, V. mini, V. áspera, Tibouchina fina, Poaceae dominante, Paliavana pequena, Lamiaceae perfumada, Vriesea 90 graus.

O Sol mergulhava entre as silhuetas das pedras. Ali, o dia acabava 754 metros mais cedo. Começamos a descida. Coletávamos o que as mãos, já carregadas de sacos de coletas, ainda permitiam. E, assim, em 4 dias de expedição, eternizamos 27,13 Kg de plantas, histórias e muitas emoções.

Todas mudanças corporais vivenciadas ultrapassam meras explicações fisiológicas. A paixão pelo conhecimento, a vaidade pela descoberta, a sensibilidade, o encantamento pelas minúcias da Natureza, pelas texturas, cores, formas e cheiros, indubitavelmente, fundam minha formação como naturalista, como Luísa.

Confesso que essas sensações descritas me acompanham nos campos, por mais visitados e explorados que sejam os lugares. Sempre são novas comunidades, novos arranjos de espécies, novas composições, novos olhares e maturidades. O mesmo lugar nunca é igual. As cores, a interação com a luz, com o tempo, com outras vidas são únicas. A Vida é uma renovação constante. 

Recordo o comentário do proprietário dessa fazenda que visitamos na Bahia: - “Vocês são os primeiros pesquisadores a subirem essas pedras.” A partir daí, o sentimento naturalista e desbravador pioneiro foi tão intenso e tão destacado que me deu vontade de registrar e partilhar com vocês.

Luísa Azevedo